29 de mar de 2015

O decálogo do bônus



E no meio da greve surge o anúncio de que teremos na próxima semana o maior bônus de toda a história, o que me parece bastante providencial ao governo. Mas oras, se não tem dinheiro para nada, como é que tem dinheiro para tanto bônus?

Então decidi apresentar dez pontos que considero fundamentais sobre o assunto, numa tentativa de colaborar com a visão que se tem sobre o sistema de bonificação:

1) O bônus é terrivelmente perverso na medida em que regula o trabalho nas escolas: leva uma legião de professores, coordenadores e diretores a reduzirem todas as ações ao simples desejo de receber o dinheiro. Em geral, essas pessoas não se dão conta de que não estão colaborando com a aprendizagem de seus alunos, mas sim com a continuidade automática de uma doutrinação.
Explico:
As novas pedagogias colocam em destaque um trabalho totalmente apoiado em desenvolvimento de competências, deixando de lado a apropriação de conceitos. E se não há apropriação de conceitos, não há construção de conhecimento. Mas vamos seguir o cortejo e continuar formando legiões de seres com muita competência, mas conhecedores de nada. O típico operário padrão, que todo patrão deseja para o presente e para o futuro.

2) Além disso, o bônus é mais perverso ainda em razão de seus critérios serem determinados por uma prova idêntica, realizada por alunos de toda a rede, nas mais diversas condições, regiões e situações. Ou seja, temos um discurso muito afinado e romântico sobre o respeito às peculiaridades e especificidades de cada escola mas, na prática, a prova é igual para todos. E se você reclamar, já existe um discurso pronto sobre conteúdos mínimos.

3) Mesmo que o propósito pedagógico fosse positivo, ou seja, se tudo o que apresentei nos dois tópicos acima não existisse, ainda assim seria perverso e injusto, pois é preciso considerar as escolas que "facilitam" as coisas para os alunos durante a aplicação das avaliações. Não são raras as notícias de sérias denúncias neste sentido, onde professores, obedecendo e sendo coniventes com os gestores, entregam as respostas corretas para os alunos, garantindo assim que o dinheiro chegue para todos os trabalhadores da unidade.

4) Mas a maioria tenta garantir o bônus honestamente, aí então a equipe se deixa envolver: faz tudo o que está determinado, fica o ano inteiro só martelando nas matrizes do SARESP e consegue um ótimo resultado. Os trabalhadores daquela escola recebem o dinheiro no mês de março e ficam felizes da vida, já programando uma conduta parecida para o presente ano letivo. Como se todos os nossos problemas pudessem ser resolvidos em um único mês. Aqueles mais endividados, conseguem colocar em ordem o pagamento do cartão de crédito. E ainda se sentem aliviados com isso,  sem perceber que em poucos meses estarão com o mesmo problema financeiro novamente, visto que continuarão ganhando um salário medíocre.

5) Atingida a meta atual, vem no ano seguinte uma mais alta ainda. É mais ou menos como se fôssemos gerente de banco, com uma cota específica de seguros de vida para vender naquele período. Números, metas, índices, rankings. Lamentável. A educação totalmente submetida ao viés mercadológico. Como se pudéssemos medir a qualidade de uma escola dessa forma. Como se pudéssemos medir o desenvolvimento de nossos alunos dentro dessa lógica.

6) Vale considerar que, se não conseguir atingir aquela meta maior ainda, mesmo que a escola mantenha um índice alto, ninguém receberá bônus. E então surge uma sensação de incompetência para a maioria dos envolvidos. "Não fomos bons o suficiente ano passado, então não vamos receber". Poderíamos chamar isso de "fraqueza instituída": o governo determina o que é bom e o que é ruim, e então decide quem será rotulado de fraco e quem será rotulado de forte. O professor nem reclama, pois se considera o próprio culpado de seu fracasso.

7) Não bastasse isso tudo, a nota que os alunos tiram na prova é rebaixada de acordo com o índice de reprovação da escola. E isso é muito sério! Nenhum professor com o mínimo de dignidade e competência técnica sente prazer em reprovar os alunos. Ocorre que, da maneira como a progressão continuada foi implementada na rede, não são raras as vezes que os meninos (e meninas) chegam ao último ano do ensino fundamental com sérias dificuldades de alfabetização, por exemplo. Devemos simplesmente empurrar estes alunos para o ensino médio? Penso que não. Mas se você for reclamar, vão te convencer de que a própria escola é a culpada, pois não conseguiu oferecer uma aprendizagem significativa. Então já é bastante comum, no conselho de classe final, ouvir professores novos me perguntando se nesta escola podemos reprovar, esclarecendo que onde eles trabalhavam antes o diretor proibia a reprovação, pois queria o bônus. Também tenho notícia de escolas onde a gestão estipula um teto percentual para a reprovação, para não comprometer indicador de fluxo escolar.

Ceder um pouco de poder aos trabalhadores pode ser um dos melhores meios de aumentar sua sujeição, se isto lhes der a impressão de influir sobre as coisas” [1].

8) A evasão escolar também tem peso no indicador de fluxo. Então, ilicitamente, muitas escolas reduziram seus índices oficiais de abandono lançando como transferidos aqueles alunos que desapareceram. Simples, não é mesmo? E está resolvido o problema da evasão escolar no estado. Os números não mentem!

9) Outro elemento que faz parte da equação para o cálculo do IDESP, é o Índice de Nível Socioeconômico (INSE), apontado singularmente para cada uma das escolas da rede. Curiosamente, escolas que atendem uma mesma comunidade, mas em etapas diferentes da educação básica, apresentam índices muito diferentes, mesmo estando a apenas dois ou três quarteirões de distância.

10) Obviamente que, com tanta marginalização, os aposentados não fazem parte do bloco de trabalhadores contemplados, pois não são mais considerados ativos pelo sistema. Não tem dinheiro para dar ao aposentado, mas os valores gastos com a simples execução do SARESP são bastante salgados. Segue uma colagem do Diário Oficial de 26/03/15, Caderno Legislativo (página 52), para que se tenha uma noção dos valores. Alguém acha pouco? E tudo sem licitação...




Certamente que apresentei aqui a minha opinião, mas desafio você a levar estes dez pontos para pauta de discussão na ATPC de sua escola. Será que os professores já se deram conta disso tudo? Será que vão continuar colaborando com a aplicação e correção das provas?

E você, colega diretor, vai se posicionar ao lado do governo ou ao lado dos seus pares?




[1]. JENKINS, David. In: TRAGTENBERG, Maurício. Administração, poder e ideologia. São Paulo: Moraes, 1980, p. 25.


2 comentários:

Emerson Pires disse...

Olá Hélida tudo bem. Gostaria de um contato direto seu para tratar de um assunto do seu interesse. É possível? Aguardo sua resposta. Obrigado.

Hélida disse...

Olá Emerson, peço que escreva para helida_lanca@hotmail.com. Grata.