23 de mar de 2015

Nunca vi a minha categoria conquistar algo sem fazer greve, infelizmente.

Depois de quase três anos, hoje decidi voltar a escrever neste espaço.
Fiz muitas coisas durante este hiato. Uma boas, outras nem tanto.
Estudei bastante, trabalhei mais ainda, e atravessei algumas dificuldades com a saúde.

Para a reinauguração do blog, decidi escrever um pouco a respeito da greve dos professores da rede estadual. Sim, estamos em greve! Ainda que a mídia não divulgue, ainda que o governador considere uma novela e ainda que uma pequena parte da sociedade nos considere uma cambada de vagabundos por isso.

A primeira assembleia da categoria aconteceu em 13/03, quando a greve foi iniciada. Confesso que eu não estava muito animada, e demorei uns dias para aderir. Aí você me pergunta: "Mas você não é diretora? Como está na greve dos professores? Diretor faz greve?".

Vejam, eu até compreendo que os diretores de escola, historicamente, surgiram num cargo relacionado ao autoritarismo e à fiscalização. Lá no início do século passado, quando as escolas estaduais começaram a se multiplicar, o sistema percebeu que precisava de alguém fixo na escola, para dar conta de vigiar muito bem as pessoas que ali trabalhavam. E então inventaram o cargo de Diretor de Escola. Até aí, beleza!
Mas em pleno 2015 a pessoa não compreender que o diretor é um trabalhador da escola como outro qualquer, precarizado e manipulado da mesma forma que todos, com um salário terrível, valorização praticamente nula e com a carga de trabalho cada vez maior, isso eu não compreendo.

E se eu não me manifestar com os meus colegas, que são os professores, vou me manifestar com quem? Com os diretores e a UDEMO? Faz-me rir (para não chorar).
O cargo que ocupo é de diretor, mas faço parte do QM (quadro do magistério) e sou professora de formação, de coração e por princípios. Minha maior bandeira sempre foi a escola pública, e se não larguei ainda, é porque acredito em suas possibilidades.

Mas acontece que a rede estadual conta com quase seis mil escolas e aproximadamente metade não tem o diretor concursado ocupando o cargo.

Não tenho nenhum problema com os diretores designados, e que isso fique bem claro. Mas já fui designada e conheço bem os trâmites. A pressão é maior, a imposição também. Qualquer escorregada nos coloca fora da jogada.

Na outra metade, dos concursados, também vejo muita acomodação e pouca resistência (ou nenhuma). Mas oras, se somos estáveis, deveríamos aproveitar isso como força para uma prática reflexiva. Ou eu estou enlouquecendo?

Por que tantos diretores se sentem melhores do que os professores? Alguém pode me explicar melhores em quê?
Por que tantos diretores adoram ser representantes do governo em vez de serem, verdadeiramente, os representantes da comunidade escolar?
Por que tantos diretores estão satisfeitos com as práticas gerencialistas que nos são colocadas goela abaixo?
Por que tantos diretores se sentem funcionários do governo, e não do estado?
Por que tantos diretores estão obedecendo as orientações da pasta, e se desdobrando em mil para os pais não perceberem que os professores estão em greve?
Por que tantos diretores estão ameaçando com mentiras os professores em estágio probatório e os temporários, dizendo que eles não podem fazer greve?
Ah, eu poderia ficar horas aqui apresentando questões infinitamente complexas...
E não é que eu culpe os meus pares por uma postura deste tipo. Eles apenas se deixaram levar por uma ideologia perversa, e a maioria deles ainda nem percebeu isso.
Basta tirar uma foto bem bonita ao lado de uma autoridade da pasta, colocar em alguma rede social e pronto. Todos os possíveis problemas de auto-estima do diretor estão resolvidos.

Então lá estou eu na greve.
É difícil, é trabalhoso, é desgastante e às vezes é até humilhante.
Mas não tem problema.
Nunca vi a minha categoria conquistar algo sem fazer greve, infelizmente.
Basta estudar um pouquinho da nossa história para reconhecer.
Para os colegas que têm mais tempo na labuta, nem é preciso pegar o livro, é só puxar da memória mesmo.

Temos problemas com o sindicato?
Sim, temos.
E quem está tão insatisfeito com ele, deveria arregaçar as mangas, se filiar e correr pra militância.
Foi o que eu fiz este ano.
Mas dá trabalho, né?
E criticar é muito mais cômodo.

Para finalizar, deixo uma imagem que, pra mim, representa muito.
É a passeata em 20/03, ocupando toda a extensão da Consolação.
A questão é que a mídia não divulgou.
Em alguns lugares chegaram a informar que havia apenas quinhentos professores.
Preste bastante atenção na foto e eu tenho certeza que você conseguirá encontrar quinhentos policiais.
E se tinha tanto policial, imaginem o tanto de manifestantes...
Mas por que será que estão escondendo o nosso movimento, hein?
Usem a cabeça e tirem as suas próprias conclusões.

(Imagem extraída de vídeo da APEOESP)

















Um comentário:

zaratustra-morais.blogspot.com disse...

Hélida. Bom retorno. Gostei da sua publicação. Abraços