3 de set de 2010

FILHOS PERFEITOS E QUE NUNCA ERRAM

Hoje vou escrever especificamente a respeito de um tipo de pais/mães que estão se tornando cada vez mais comuns: os pais de filhos perfeitos, que nunca erram e que estão acima do bem e do mal.

De alguns anos pra cá, é visível como a "espécie" está se multiplicando e dificultando bastante o trabalho de quem está na escola.  Mas se o problema fosse apenas dar trabalho pra gente, tudo bem. Estamos ali pra trabalhar mesmo, então tanto faz. Mas o problema é muito maior do que isso.

O cerne da questão é o quanto prejudicam o desenvolvimento dos próprios filhos ao negarem a possibilidade de erros. Se não há erros, não há necessidade de corrigí-los. Se não preciso corrigir, não tenho trabalho. E ponto final, sigo a minha vida tranquilamente.

Nada que seja dito a estas pessoas vai convencê-las do contrário. Se você mostrar um vídeo que comprove uma atitude ilícita, por exemplo, vão dizer que é montagem. Se você apresentar testemunhas, vão dizer que estão mentindo. Aliás, será que essa gente pensa que eu saio de manhã da minha casa com o propósito de ficar mentindo para os pais? O que eu ganharia com isso? Ah, faça-me o favor!

Esse "tipo" de gente, quando recebe um bilhete na agenda informando que o filho deixou de fazer uma tarefa em casa, responde com outro bilhete - geralmente agressivo - defendendo o filho e atacando a escola. Não há uma preocupação em justificar e reparar o erro, até mesmo porque não houve erro algum e, se houve, foi do professor que deu lição de casa e exigiu que fosse feita. Captou?

Quando são chamados na escola para tratar de alguma situação mais grave (uma briga, por exemplo), nem sequer ouvem o que a outra parte tem a dizer e já saem na defesa cega do filho e no ataque gratuito à diretora, que geralmente é a culpada por todos os problemas da escola e de seu entorno.

Ontem telefonei para a mãe de um aluno e informei que ele, mais uma vez, tinha vindo pra escola sem o material e que se recusava a fazer qualquer atividade durante a aula. Solicitei que ela acompanhasse o filho todas as manhãs na organização de sua mochila, pra que então ele nao usasse mais a situação da falta de material como desculpa para não produzir. Sabem o que eu tive que escutar? Que eu só sei pegar no pé do filho dela e se eu não tenho outros alunos pra me preocupar ou outras coisas para fazer. Juro, entre a risada e o enfarto, preferi a gargalhada.

Tem também uma outra, que já informou que a filha não fará as lições de casa quando tiver que copiar o enunciado o exercício (do livro para o caderno) e depois responder. Ela já determinou que cópia é perda de tempo (talvez tenha alguma vizinha pedagoga que ensinou isso) e que a escola deveria ensinar coisas mais úteis. Tentei argumentar e esclareci que não se tratava de simples cópia, e que não teria sentido para o aluno ter aquela resposta "solta" no caderno - considerando que os livros são não-consumíveis, a saída é copiar o enunciado. Ela me respondeu dizendo que sou péssima profissional e que preciso atualizar a minha visão. Agradeci o conselho. 

Mais malucas marcantes ainda são aquelas que têm o benefício cortado (bolsa família) em virtude de baixa frequência do filho na escola. Elas não aparecem para verificar as faltas, mas sim para proferir os mais variados tipos de insultos à diretora, que fez constar as faltas no sistema e, mais uma vez, é a culpada. Elas não entendem que o benefício foi cortado porque a criança faltou muito. Na cabeça delas, foi cortado porque a diretora quis. Ai ai...

Não faz muito tempo, um grupo de alunos criou uma comunidade numa rede social, colocando em questão a opção sexual de um professor, que ficou sabendo e trouxe o problema pra eu resolver. Óbvio: chamei os pais para informar e orientar. Um deles me disse que se o filho criou aquilo, é porque o professor fez por merecer, e que eu teria que verificar.  Tá bom?

E assim vamos seguindo, sem saber exatamente para onde.
Claro que não são todas as famílias que têm essa característica, mas são muitas.
Muitas mesmo.
Muito mais do que o aceitável.
Muito mais do que o possível para se garantir o mínimo de ética numa sociedade.


Gente, esse mundo tá virado!




4 comentários:

Marlene disse...

Sinto pena dessas crianças e adolescentes,à eles é negado o direito do aprendizado MAIOR, aquele que deve ocorrer na convivência com a família.

Dreams disse...

As vezes consigo pensar em uma escola em que Diretores,professores e todos os envolvidos consigam apreender a Educação Básica:
Respeito em família!Também tenho tristeza na alma quando nós professores tentamos recuperar a dignidade e o respeito pelos trabalhadores fálidos da educação.(oferecendo lições de casa e se preocupando com os aprendizes em suas casas)TRISTEZA!

Francisco Araújo Netto disse...

Nobre Diretora Hélida, paz... Gostei muito do vosso blog e de suas idéias. Vou divulgar aos meus leitores.

Vejo, pelo que escreve, que nossa vocação se aparentam.

http://wwwteologiavivaeeficaz.blogspot.com/

Att.,

Profº Netto, F. A.

Dani disse...

É professora, que saudade das escolas de antigamente, bem como dos pais de antigamente. Não tenho muita idade, mas na minha época de colégio tanto os meus pais como os pais de meus colegas não admitiam, em hipótese alguma, que desrespeitássemos nosso professor e muito menos o diretor, que até então era autoridade máxima ali.
Sinto muita pena (quando passa a raiva) desse tipo de mãe e mais ainda desse tipo de criança que certamente crescerá sem valores e sem conhecer o significado da palavra RESPEITO. Estamos caminhando para um período onde só o que tem valor é o eu de cada um. Ninguém se importa mais com ninguém e a isso devemos agradecer a esses "brilhantes pais" que com sua auto-suficiência e a mania de ver a todos como inimigos em potencial, estão contribuindo para que esses futuros adultos mudem sim o nosso país, mas para pior. Preferem lutar por seus "direitos" (que é o que a mídia induz) ao ver seu filho lendo, escrevendo, copiando enunciados e aprendendo corretamente.
A esses pais, gostaria de dizer que não é desta forma que se protege um filho ou a quem quer que seja, mas sim dando a ele valores e postura para que, desta forma sim, ele tenha condições de sobreviver e quem sabe poder ensinar isso a outras pessoas... Pois isto sim faria a diferença!