3 de fev de 2010

QUAL O PROBLEMA EM SER AVALIADO?

E a "rede" não fala em outra coisa que não seja "a prova".  Seja a prova dos OFA ou seja a prova da promoção por mérito, todos estão ligados a bibliografias, gabaritos, número de questões, acertos, erros, etc.
Ao rever meus colegas diretores na reunião de ontem, percebi que muitos substituiram o tradicional "como foi de férias?" pelo inovador e moderno "como foi na prova?", o que é totalmente compreensível se levarmos em conta o tamanho da novidade, a ansiedade e o sentimento de injustiça com a categoria - que, mesmo com as tentativas frustradas dos sindicatos assim , compareceu em peso nas avaliações.
Falar do processo seletivo para contratação dos professores é meio que chover no molhado. Está posto. Acho natural e sensato que haja um processo seletivo para contratar pessoas em qualquer setor. Simples assim.
Com relação à promoção por mérito, a idéia poderia ser boa se não deixasse de fora oitenta por cento dos  ativos e a totalidade dos aposentados. Por esta ótica, toma a aparência de um programa perverso. 
Não há dúvida que devemos ser avaliados, acho muito digno.  Mais digno ainda se todos os funcionários da educação fossem avaliados, incluindo os que estão designados em cargos de maior escala. Mas penso que a avaliação deveria estar ligada à estabilidade, e não a aumento salarial.
Aí muitos podem dizer que estou enlouquecendo, que alterar a estabilidade requer legislar em grande proporção. E então eu respondo com outra pergunta:  legislar tem sido algum problema para este governo?
Uma coisa é fato: estabilidades, aumentos, contratações e visões políticas à parte, estávamos todos lá, fazendo a prova, completamente envolvidos naquele universo da avaliação. Presenciei diretores estudando no metrô e supervisores comentando alguns artigos na entrada do prédio.  Foi como se, naquela manhã, naquelas horas de prova, todos tivessem deixado de lado os motivos que nos levaram até ali. Penso que era uma questão de honra: vamos fazer a prova, mostrar quem somos e o quanto sabemos - não vemos problema nenhum em sermos avaliados.

E depois?
Bem, depois é uma outra história.
Se a grande maioria foi muito bem, quem sabe teremos "voz" pra dizer algo.
Quem sabe...

3 comentários:

Anônimo disse...

Não há problema em ser avaliado, concordo.
Porém, queria lembrar algumas coisas de um passado não muito distante. Sou filho de uma professora aposentada que no começo de sua carreira (10 anos), já havia adquirido casa própria e carro. Isto sendo separada e com duas filhas na época (sem pensão).
A mesma cometeu um "pequeno" erro, em 1980, e lá estava eu no ano seguinte.
Lembro de uma infância não regrada de caviar. Mas tínhamos até empregada (com carteira assinada), para que minha mãe pudesse trabalhar trabalhar.
Hoje, sou professor efetivo do Estado. Moramos juntos por amor e muita CONVENIÊNCIA financeira, não tenho carro e, muito menos uma casa.
Porque algum jovem iria entrar na carreira de professor hoje?

PS: minha mãe nunca fez prova para ter aumento salarial, e sempre foi reconhecida na cidade como uma ótima professora de matemática.

Leonardo

Fatima Cardoso disse...

Acredito que também não há problemas em ser avaliado.Estamos em todos os bimestres sendo avaliados por nossos próprios alunos e nossos próprios professores ,nossos próprios funcionários.....Então;por quê? tanta indignação?
Merecimento ou não? estamos na sociedade da disputa!Quem quer ou quem pode?
Acredito que está na hora da rede mostrar quem ela é! e quanta gente ´BOA tem na rede!
sem indignação!

Anônimo disse...

Concordo que não há problema em ser avaliado. Porém, é preciso esclarecer alguns pontos:
a) uma avaliação escrita/teórica/conteudista não revela de fato o bom profissional. Conheço casos (vários) de excelentes profissionais, com anos de experiência bem sucedida na sua função (alunos bem preparados, projetos escolares em andamento, etc), que contam com a admiração da comunidade escolar (incluídos aí pais e alunos, claro) mas não se saíram bem na prova. Isso significa então que são maus professores?
b)Na propaganda (mentirosa) divulgada a cada 5 minutos no horário nobre (quanto custa isso?) diz que "professor que estuda mais é valorizado". Não é bem assim. Professor que esteve afastado do cargo não teve direito a participar da avaliação (ainda que tenha se afastado para ministrar aulas em outra escola da SEE, outra área, ou até em afastamento para estudar; fazer mestrado/doutorado/licenciatura (afastamentos garantidos por lei). Se o que se pretende é avaliar o conhecimento do profissional, não se deveria punir aquele que segue se aprimorando, sem esquecer aquele que tenha tido problemas de saúde.
c)processo seletivo para contratar é diferente de processo seletivo para demitir. No Estado o processo seletivo foi criado para demitir, já que para contratar deve ocorrer por meio de concurso (conforme dita a legislação vigente), sendo assim se deveria fazer concurso e não "provinha preparada às pressas, com bibliografia ultra-extensa, divulgada com apenas um mês de antecedência e que não admite vista de prova". Uma informação: em SP quase a metade dos professores são OFAs, agora subdivididos em categorias discriminantes. Não é tão simples assim.

Pausa para uma breve comparação: em diversas outras áreas de atuação de nível superior estudante é estudante e profissional habilitado é profissional habilitado (conforme a lei: formado/diplomado). Digamos que este ano eu resolva estudar (bastante!) e consiga passar na prova da OAB? Isso faz de mim um advogado melhor do que "todos" os demais profissionais formados/diplomados? É isso que está ocorrendo na Educação (de SP).
d)Ainda que a grande maioria dos que fizeram a prova de "promoção por mérito" tenham ido bem apenas uma minoria será beneficiada financeiramente. Então... cadê o mérito? Não há mérito. E mais, façamos agora umas continhas: 4 horas de prova para 80 questões. 4x60=240. 240 minutos. 240/80=3. Temos então 3 minutos para resolver cada questão e anotar no gabarito. Baseada em minha experiência em preparar/aplicar/corrigir provas (de vestibular, concurso, etc) lhes digo que é pouco. Pois temos que considerar não só o nível de dificuldade das questões, mas também as condições a que o ser humano está submetido naquele momento. E para os profissionais de exatas um agravante: o tempo de prova foi o mesmo. E o tempo para efetuar a equação, para "calcular"? para onde foi? Leva-se o mesmo tempo para ler e optar pela alternativa adequada que para efetivamente fazer os cálculos? Tenho certeza que não.
e)Os OFAs admitidos este ano (nas novas categorias) não poderão ministrar aula em 2011. Como é isso? Este ano eles são melhores que os profissionais que estão na ativa mas não passaram na prova, mas no ano que vem deixam de sê-lo? Cadê a coerência?
Poderia seguir enumerando aqui todos os descalabros, mas me parece desnecessário.